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Religião, política e preconceito


Pensando nessa celeuma toda sobre evangélicos e política, vejo que a insistente relação que se força ver entre evangélicos e obscurantismo é muito preconceituosa. Há uma dose de verdade, é claro, mas há muita má vontade.

Nosso Brasil católico (realidade que transborda os limites da denominação religiosa romana - algo que permeia a cultura latina de alto a baixo) tem um traço de muita arrogância. Uma determinada imagem a ser preservada. Qualquer um que perverta essa lógica está fora. Daí o já secular preconceito com os "crentes". Deus nos livre de piadas contra gays, negros, estrangeiros ... Mas nunca é pecado taxar os evangélicos de atrasados ou coisa parecida.

O fato, a mim me parece, é que os evangélicos (como bloco) não existem. O que há é uma extensa e plural rede de igrejas e denominações distintas. Desde o mais conservador ao mais liberal; do mais progressista e libertário até o mais alienador e charlatão possível.

O universo multifacetado do povo evangélico é o retrato do Brasil. Somos uma colcha de retalhos; um mosaico que, visto de longe, parece ter uma homogeneidade; de perto, se pode perceber suas fissuras e emendas mal acabadas. Nas virtudes e nos defeitos, somos uma pluralidade muito rica.

Não há um líder que represente essa massa. E isso é muito bom, diga-se de passagem! Aliás, falar em massa não é o termo mais adequado para falar de "evangélicos".

As críticas que podem e devem ser feitas passam necessariamente pelo reducionismo ignorante no tocante a sua visão de mundo. Mas isso também não é exclusividade protestante. Religiões tendem a ser reducionistas sempre. O catolicismo e as religiões afro (pra ficar com exemplos domésticos) têm suas tacanhices também.

Reclamar de uma suposta alienação coletiva só faz sentido se se tiver a disposição de pensar sobre outros espaços de semelhante massificação. Penso na renovação carismática católica, nos ritos de iniciação do Daime, nas torcidas de futebol, na imprensa que inventa, vomita e impulsiona suas meias verdades, nos círculos de convivência que só sabem falar de lugares comuns publicados nas revistas de massa, e, inclusive, na própria política (ou por sua dimensão ideológico-partidária ou pelo clientelismo típico de nossa cultura). Pau que dá em Chico, dá em Francisco!

O elogio que cabe é difuso. Tem a ver com a relativização do poder de uma igreja que se confunde com o estado e usurpa espaços e verdades. Questionar essa equivocada identificação já vale a pena. A presença das igrejas evangélicas e sua "microfísica do poder" contribui em muito para saber que há vida fora dos palácios curiais e que a sociedade brasileira já deixou de ser (se de fato foi mesmo um dia) uma nação católica.

Nada contra a Igreja de Roma, pelo contrário; mas há que se analisar com honestidade esse tapete sobre o qual pisamos. Falar de "evangélicos" exige analisar a história da religião no Brasil, desde sua colônia. Libertação e opressão são faces de uma mesma moeda. Lá e cá. Ontem e hoje.

A crítica é que, apesar de uma fé tão vigorosa e carismática, os evangélicos entram em cena e não fazem a menor diferença, a não ser pelo quantidade, se é que faz mesmo (coisa da qual duvido). Caracterizados pelo pietismo, pelo sectarismo e pelo puritanismo, os evangélicos têm perdido o compasso da história e têm se circunscrito aos ritos despojados de densidade história, política e ética.

Entre o Lysaneas Maciel que viveu a política na sua dimensão do serviço e da coragem (sem recorrer aos gatilhos retóricos da religião); e o Malafaia que arvora para si (de dedo em riste) uma legitimidade que não tem e uma postura de chantageador inescrupuloso; fico com a sensação de que um Brasil evangélico - nos termos que aí estão - não seria melhor.

Mas o fato é que nunca fomos melhor, mesmo quando esse ingrediente evangélico ainda não fazia cócegas na sociedade e nas disputas de poder.

Somos o que somos. Somos, ainda, o que fomos.

Não considero que o critério religioso seja razoável para fazer escolhas. Especialmente escolhas que interfiram na vida alheia, na coletividade. Religião é política; mas não tem ajudado muito. Ao contrário.

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